Blog - Um Educador em dois mundos

QUARTA-FEIRA, 26 DE ABRIL DE 2017

Do May Flower a Colheita de Blueberries

Do May Flower a Colheita de Blueberries
No sábado passado acompanhei minhas netas em uma colheita de blueberries. Todos os anos, nos meses de abril e maio, algumas fazendas abrem suas portas para que todos possamos colher estas frutas. Chegamos a uma destas fazendas. Um esquema Disney de estacionamento, ingresso free, centenas de pessoas. Cada um pega seu balde e sai colhendo os dez tipos de blueberries que estavam plantados ali. Tinha música ao vivo, food trucks, play grounds, muitas crianças e nenhuma sujeira no chão. No meio de um mega festival, tudo limpo, cuidado e funcionando. As filas para pesar os baldes eram longas, mas todos se divertiam nelas também. Foi muito bonito ver minhas netas colhendo as frutas, colocando em seus baldinhos e convivendo com a natureza, mas a organização do local (uma fazenda e um galpão) me fez pensar. Por que tudo funciona aqui?
Pensei no May Flower, aquele navio de pioneiros que, em 1620, trouxe os primeiros imigrantes para os USA. Eram Calvinistas puritanos que resolveram tentar a vida no novo mundo.
Li que estes pioneiros tinham quatro valores fundamentais: Liberdade – dispensa comentários. Se a vida é o maior de todos os bens, que até transcende nossa compreensão, como viver sem liberdade; Moralidade – isto é compreensível porque naquela época o Vaticano e a Igreja Anglicana eram pocilgas públicas e expostas; Lei – pensavam que a justiça era a melhor maneira de garantir a liberdade: Educação – olha a gente aí. Pensavam em dar educação para todos em uma época em que os jesuítas optavam por educar as elites (para a ralé tinha a justiça divina).
Li, também, que mais para a frente, os chamados pais fundadores desta nação utilizaram estes valores para definir o país:” Liberdade com Justiça e dar para todos, pelo menos uma chance”.
Talvez venha daí a organização que funciona em um caldeirão étnico impressionante, mais diversificado que o do Brasil. A América não é um povo, uma raça, ela é uma ideia, me disse uma vez o Ross, um grande amigo americano. Uma ideia que vem dando certo e pode servir de guia para o futuro em um mundo cada vez mais complicado.
Hoje, ao parar em um posto de gasolina, pude ajudar um senhor que estava com dificuldade para usar seu cartão na bomba. Vi que era um militar aposentado (eles colocam adesivos nos carros e são muito queridos aqui). Ele me agradeceu pela ajuda e eu, como um Inglês nobre, disse que eu era quem agradecia por ele ter me dado a chance de ajudá-lo. Também comentei o fato de ser um militar aposentado. Ele me disse: “aqueles anos não foram nada demais. Simplesmente cumpri minha obrigação de defender um país que me deu tudo. Daria minha vida por isto”. Quase chorei. Lembrei das minhas netas com os baldinhos e cheguei a conclusão que sou muito privilegiado por estar aqui.
Enquanto isto no Brasil somos ameaçados, por e-mail, de estarmos tolhendo o direito de greve. Simplesmente porque vamos funcionar na sexta feira. É mole? 
Educação tem tudo a ver com valores. Quais são os nossos mesmo? Jeitinho, malícia, etc… Não pode ser. No Brasil tem muita gente séria. Nem todos criam dificuldades para vender facilidades e se fazem de defensores dos pobres para enriquecer. Os bons precisam falar alto. Chega canalhas!!!

QUINTA-FEIRA, 20 DE ABRIL DE 2017

De Volta para o Futuro assistindo a La La Land

No domingo de Páscoa acordei as 4 horas da manhã. Dirigi até Campinas. Fui super bem recebido pelo pessoal da Azul no meu check in e embarquei em um lindo voo para Orlando. Nossa segunda escola americana está quase pronta e precisa ser equipada, ter as professoras contratadas, etc…
No voo de 8 horas uma surpresa. Filmes atualizados. Isto é bom porque meu cinema agora é no avião. Em cada viagem dá para assistir a uns três filmes. Deste vez consegui ver La La Land. Tantos Oscars. Filme genial!
Voo ótimo, o pessoal da Azul super gentil (virei fã desta empresa) e as 5h30PM, horário da Costa Leste, pousei no extraordinário McCoy International Airport. Peguei meu carro e uma hora depois estava vendo o sorriso de minhas netas e as gordurinhas do bebê mais gorducho do mundo. Tudo muito bom.
Não posso deixar de comparar. Penso que os Estados Unidos são o que o Brasil poderia ter sido. Surgimos na mesma época, temos dimensões continentais, uma diversidade étnica incrível e colonizadores diferentes, mas implacáveis na cobrança de impostos.
Só que as semelhanças param aí. Aqui tudo funciona, tudo é cuidado e as pessoas, em geral, vivem muito melhor.
Pensei no epílogo de La La Land. Lindo demais. Quando ele mostra o que poderia ter sido e não foi, com uma trilha sonora magnífica. Fui ficando triste, mas um lindo sorriso mudou tudo (não falo mais para não prejudicar quem não assistiu) e terminei o filme orgulhoso por gostar de cinema. Como alguns lindos sorrisos de pequenas criaturas que gostaram de me ver. Voltei biápido, como uma delas pediu. Até quis dormir comigo para matar a saudade. Bom demais.
Mas  em nosso país, infelizmente, um sorriso não vai mudar nada. Não temos a magia de Disney ou de Hollywood. Será preciso o trabalho de muitos por décadas e começar a revolução pela Educação.
Não sei, mas estamos longe de começar. Muito longe. Parei de pensar nisto. Agora muito trabalho aqui, ver os sorrisos das pequenas e do gorducho e lembrar do sorriso e da beleza de La La Land. Afinal estou aqui, vivendo o sonho americano. Vou aproveitar. Já estou com a trilha sonora no meu Apple Music em meu carro e nas lindas estradas. Vai ser bom demais!!

QUINTA-FEIRA, 13 DE ABRIL DE 2017

Nova Base Nacional Comum

Ainda chocado, após ouvir as gravações com as confissões da Odebrecht e com a cara de pau de nossos políticos desmentindo tudo ou não sabendo de nada, acho melhor comentar algo bom.
Finalmente foi divulgada a Base Nacional Comum. Isto define o que vai ser ensinado para nossos alunos. Ainda não temos a nova base para o Ensino Médio que será divulgada até o final do ano.
Vamos aos pontos principais:
1- Todas as crianças devem estar alfabetizadas até os sete anos. Nas escolas privadas isto já ocorre. Agora será obrigatório para todos. Apesar de eu ter lido algumas criticas, acho que é uma boa meta.
2- O Ensino Religioso passa a ser optativo e poderá ou não ser oferecido por estados e municípios. Para mim isto é lógico.
3- O Inglês será obrigatório a partir do sexto ano. Em um mundo globalizado isto é o mínimo.
4- Estatística passa a fazer parte do currículo a partir do primeiro ano. Para entender e interpretar dados isto é fundamental.
5- Pluralidade e diversidade: devem ser trabalhadas a partir do quinto ano. Acho que está na hora de termos uma abordagem científica sobre estes assuntos.
6- São direitos de todos: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se. Nobres e abrangentes objetivos.
Como sempre, lemos coisas boas e ruins sobre esta nova diretriz. A crítica mais comum é a de que os professores não estão preparados para trabalhar com competências. Pode ser verdade mesmo.
Outra está relacionada a não priorização da tecnologia. Também é verdade.
Mas, no geral, estamos evoluindo. Ter uma nova base é um começo de um longo processo. Como sempre, precisamos ver o que vai ser mudado quando os interesses corporativos começarem a interferir e, acima de tudo, se tudo isto não vai se tornar letra morta.
Todo o processo de mudança na Educação é lento. Mas só ele muda um país para sempre. Quem sabe, em décadas, as gerações futuras não terão que ouvir mais a canalhice dos áudios divulgados nas denúncias da Odebrecht.
Na próxima semana vamos detalhar as competências que serão as novas metas para nossos futuros alunos. Que sejam novas gerações melhores. As atuais estão podres. Dúvida? Ouça cinco minutos das gravações divulgadas. Se não sentir enjoo, você está seriamente comprometido.

AUTOR

Maurício Fraçon

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